Agosto é mês de falar de amamentação

7 de agosto de 2020

Amamentação: entenda sua importância, a orientação em tempos de COVID-19 e os casos em que ela é contraindicada

Agosto Dourado é o Mês do Aleitamento Materno e faz referência ao leite materno como um “alimento de ouro”, o melhor e mais nutritivo para os bebês. Ele é recomendado, inclusive, quando a mãe está com suspeita, ou mesmo positivo, de COVID-19 caso se sinta bem e à vontade para amamentar, seguindo os cuidados adequados de higiene. Então, não há momento mais propício para abordar a importância da amamentação, tanto para as crianças quanto para as mães.

É importante entender que esse é um processo natural de nutrição completa, saudável tanto para o bebê quanto para a mãe, mas que precisa de informação e orientação, ainda mais em tempos de Covid-19, para que aconteça e seja confortável para as duas partes. Conversamos então com uma pediatra, conhecida nas redes sociais e parceira do Pezinho no Futuro: a Doutora Kaka (Kallydya Fonseca). A médica explicou diversas questões relacionadas à amamentação e também abordou casos em que ela não é indicada. Confira a entrevista.

POR QUE A AMAMENTAÇÃO É TÃO IMPORTANTE?

DRA KAKA: O leite materno é o alimento mais completo para o desenvolvimento físico e emocional do bebê. Ele tem proporções adequadas de proteínas, de ferro e de gordura. Além disso, tem anticorpos, o que promove a redução de muitas doenças no aleitado. Nenhuma outra fórmula ou composição reúne tudo isso. Até o sexto mês dos bebês, o leite materno é o melhor alimento, tanto que as crianças alimentadas com o leite da mãe nesse estágio da vida não precisam beber nem água. Em um país de desigualdade social como o nosso, é importante ressaltar também a questão da gratuidade: ou seja, a mãe não precisa comprar produtos para alimentar o bebê, já que ela tem o leite de forma natural. Em relação à questão emocional, a amamentação estreita os vínculos entre mãe e filho. Em poucas palavras: não há nada melhor para os bebês do que o leite materno. Por isso, é muito importante que as mães cuidem bem de sua saúde desde o pré-natal, já que ela irá transmitir anticorpos ao bebê durante o aleitamento. Também gostaria de dizer que mães que amamentam têm menos chance de desenvolver cânceres de mama e de ovário.

UMA MÃE AMAMENTAR UM FILHO É UMA DEMONSTRAÇÃO DE CUIDADO E DE AFETO. NO ENTANTO, HÁ CASOS EM QUE O ALEITAMENTO GERA DESCONFORTOS À MÃE. COMO LIDAR COM ESSA QUESTÃO?

DRA KAKA: Sempre digo que o que vale é o bom senso. Há de ser levada em conta a qualidade de vida, do bebê e também da mãe. Há casos de depressão pós-parto e de alterações hormonais e emocionais em que a mãe não tem estímulo para amamentar. Há ainda mães que sentem um desconforto absurdo ao amamentar, por conta de inflamação das mamas (mastite), sangramento ou empedramento do leite. A recomendação é que as mães se esforcem ao máximo para amamentar. Mas se o desconforto for insuportável, há medidas que podem ser tomadas. Em muitos casos, uma simples pausa na amamentação pode resolver o problema. A ordenha também pode ser uma solução. Outro ponto que é importante ressaltar: a amamentação, por mais que a mãe se esforce, pode não ser bem-sucedida. Nesses casos, a mãe não deve se culpar. Maternidade não é só amamentar.

QUAL A ORIENTAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA, NO CASO DE SUSPEITA OU MESMO POSITIVO PARA A COVID-19?

Até o momento, não há documentação de transmissão vertical durante a gestação e nem no período neonatal, pela amamentação. Contudo, devido ao risco de transmissão por contato, gotículas respiratórias através de tosse/espirro, caso a mãe queira manter o aleitamento, ela deverá ser esclarecida e estar de acordo com as medidas preventivas necessárias: Lavar as mãos antes de tocar no bebê na hora da mamada; Usar máscara facial durante a amamentação. Caso a mamãe não deseje amamentar nesse período, pode dar o leite materno ordenhado no copinho, seja por ela ou outra pessoa com as devidas precauções.

HÁ CASOS EM QUE A AMAMENTAÇÃO É CONTRAINDICADA?

DRA KAKA: Sim. Mães infectadas pelo HTLV1 e HTLV2 (vírus da leucemia humana T-cell) e mães portadoras de HIV não devem amamentar, pois há risco de transmissão do vírus ao bebê. Crianças com diagnóstico de galactosemia também não devem ser amamentadas. De forma bastante resumida, a galactosemia é uma deficiência enzimática em que o açúcar do leite não é quebrado até a fase final e a galactose não é transformada em glicose. Desta forma, a galactose se acumula no organismo e pode gerar diversos problemas, como neurológicos, renais, hematológicos, hormonais e oftalmológicos.

HÁ OUTROS CASOS EM QUE A AMAMENTAÇÃO PODE SER PARCIALMENTE CONTRAINDICADA?

DRA KAKA: Sim. A acidúria glutárica, assim como a galactosemia, é uma deficiência enzimática que pode ocasionar um quadro de encefalopatia, de alteração da função cerebral. A ingestão de leite, nesse caso, pode levar a convulsões e gerar sequelas neurológicas. Já a leucinose, outra deficiência enzimática, pode provocar, por exemplo, dificuldade de sucção, vômitos, desidratação, crises convulsivas e sinais de edema cerebral. Nos quadros dessas duas doenças, no entanto, há casos em que a amamentação pode ser realizada desde que de forma supervisionada.

A ACIDÚRIA GLUTÁRICA E A GALACTOSEMIA SÃO DOENÇAS RARAS DETECTADAS NO TESTE DO PEZINHO AMPLIADO?

DRA KAKA: Sim. Hoje, no sistema público de saúde, o teste realizado detecta apenas seis doenças. Já o Teste do Pezinho Ampliado, feito em redes particulares, rastreia até 53 doenças, entre elas a Acidúria Glutárica e a Galactosemia. Por isso, a recomendação é de realização do teste ampliado. O diagnóstico e o tratamento precoces, de qualquer doença, são fundamentais para a diminuição de sequelas. Crianças com acidúria glutárica ou galactosemia, se tiverem um diagnóstico precoce, terão a chance de evitar sequelas e, assim, a qualidade de vida delas pode ser melhor. Portanto, acredito que se há um teste do pezinho ampliado, o ideal seria o poder público oferecê-lo a todas os recém-nascidos. Há famílias que não têm condições financeiras de pagar pelo teste. Por isso eu apoio a Campanha do Teste do Pezinho Ampliado.

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